sexta-feira, 3 de junho de 2011

quinta-feira, 13 de maio de 2010

sábado, 17 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Senhor Zé

Cheguei a voltar a casa até às quatro da manhã, ou, quando o arrefecimento da noite o permitia (isto é, quando ma dava folga, naquelas noites de verão...) nem chegava a deitar-me. Quando alguém dava pelo meu regresso perguntavam-me de onde vinha. Invariavelmente respondia que estive a ouvir o senhor Zé. Não indicava o local, como se fosse natural todas as mentes entenderem que o lugar são as conversas que saiam da boca do senhor Zé. Muitas chagavam mesmo a percorrer um caminho atribulado, tinham que patinar algures na laringe enlameada pela cerveja de garrafa e demoravam a sair.
Quem ainda tinha forças para me desafiar, pediam para justificar a demora devida a um motivo tão pouco legítimo. Sentiam-se vencidas por argumentos meus (que eram só redundâncias da frase 'estive a ouvir o senhor Zé a contar histórias') sentiam-se vencidas e disparavam coisas sem sentido. Por vezes até mostrava que as histórias que ouvia eram importantes. O senhor Zé falava-me dos seus tempos todos, dos quais nem suponha que metade fossem dele; contava-me das vezes que tinha sido fodido e de algumas em que fodera, num manifesto mais ou menos literal do que fora a sua vida (porque para a frente eram só especulações). Era importante ouvir o senhor Zé, vou faltar às aulas da manhã se for preciso porque mais ninguém vai estar ali senão eu, e é vital ouvi-lo. Do outro lado começavam a impacientar-se, a sentirem um súbito chamamento para a razão, pelo menos para a razão deles, a razãozinha, que é aquela se sentimos quando temos razão. Então diziam de que serve ouvir agora o senhor Zé se não for às aulas. Depois ia ter uma vida miserável motivada pela fraca instrução oficial e como tal não ia poder ter a independência mental para me serem úteis, em última análise, os ensinamentos do senhor Zé. Que mais tarde podia ouvir outros velhos e bêbados, aos montões, quando tivesse a vida estabilzada. Mas eu calava-os. Dizia que aquele senhor Zé é que tem que ser ouvido. Que não ia ouvir outro senhor Zé, porque senão quem ouvia este? E que o outro senhor Zé não era este senhor Zé, e que por mais genuino, não passava de uma imitação de nylon deste senhor Zé, e quem quer uma imitação de nylon quando tem agora - atentem no agora - o verdadeiro senhor Zé? E deitava-me, mas não dormia, e ia às aulas da manhã.

sábado, 27 de março de 2010

atrás

cá atrás é diferente
as harmonias não são tão harmónicas
os ritmos não são tão rítmicos
as cadências misturam-se com as reverberações das paredes técnicas de betão colorido de preto

os sons tornam-se manifestos longínquos de outras idealizações que aquelas que se passam por detrás e, portanto, se sobrepõem, dando a conhecer um produto final de intelectualização que será tão semelhante àquele que se passa do outro lado (à frente) quanto o profissionalismo daqueles de trás

e sonham:

será que à frente é diferente?
será que as harmonias são, de facto harmónicas?
e os ritmos, serão eles rítmicos?
conseguir-se-ão distinguir as tais cadências, serão elas concluintes ou serão que deixam pairar uma desconfiança de não-final?

segunda-feira, 1 de março de 2010

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

03:19

Não consigo dormir. Ocorreu-me escrever-te centenas de cartas, como tal, não consigo escolher uma. Mas como sou um fraco, e tenho que te escrever algo... Bem, o que quero dizer é que te vais ter que contentar com isto:


03:22

Uma vez escrevi-te assim:

Não tens que agradecer.

Não fui eu quem te desenhou o sorriso, nem o contorno da cara, nem te pintou as mãos de vermelho nem os olhos de azul. Quando te vestes de paz e rosa e ris, nunca sou eu o guarda roupa. O guarda roupa... nem sequer te escrevi os textos! Foi o gajo, o que escreveu também em itálico, provavelmente por cima da tua primeira fala, que era agradável estar contigo. Sobre isso, quero que fique claro, nem tenho culpa! (E por um pouco, nem desculpa para o fazer.)


03:24

Tenho pensado muito em ti. Tens sido a responsável por ter escrito muitos textos ultimamente. O que não é mau para um escritor. Bem, já sei que, quando sair alguma compilação de textos meus, os meus colegas vão topar que vão todos a saber a ti. Deixa-os, isto é só nosso! Posso até concretizar isso, posso nem publicar os textos e apenas dá-los a ti. Por mim é boa ideia, de todas as maneiras já consegui armazenar comida até ao fim do mês.


03:28

...

03:31

Passam-me pela cabeça milhares de matérias, ou assuntos (para onde irão eles?). Não os estou a conseguir organizar, por isso vou fazer uma lista:

  1. agora não se escrevem cartas
  2. agora arquitectam-se relações
  3. não sei se sabes que és assim


03:33

A primeira entrada é mais um apontamento que me faz questionar - e automaticamente responder, por já saber a resposta - porque estou a escrever isto. Já (quase) ninguém escreve cartas. Porém, são cartas que me apetece escrever-te. Sei bem que é devido aos medos e faltas de coragem respectivas que estão associados ao pensar em escrever isto tudo num telemovel, limitado por espaço e saldo. Foi fácil, e sobre isto já não há mais a acrescentar.


03:36

b) é uma consequência de ter pensado em a) e ter ficado acordado a pensar em ti quando tenho centenas de personagens que me acompanharam durante o dia a dançar na minha cabeça (e que descem pelo meu peito). Sei bem das regras que implicam escrever uma carta de amor ou de amizade assinada por um alguém, na esperança de publicar nalgum suplemento literário de uma revista menor. Basta escrever na terceira pessoa e a relação que conto ao leitor é outra (muito mais formal, ou antes, cuidada). Também podemos pensar em todos os pequenos detalhes quando lidamos com alguém. E acredito que há quem o faça. Dá-me vontade de lhes chamar plásticas a essas relações.


03:40

Não sei mesmo se sabes porque te acontece isto, de deixar alguém acordado. Já muitas vezes sugeriste desconhecer porque há homens que se comportam como crianças na tua proximidade. Espera... não, isso acho que podes tentar descobrir tu! Até porque não sei tudo, não é? Ups, já está a acontecer outra vez. Isto passa-se muito, de querer escrever, que devia ser apenas decalcar as ideias muito estruturadas que me passam pela cabeça, e entrar numa dormência que me obriga a escrever palavras que não fazem sequer ligação com as que se encontram duas posições atrás. Tenho que ter mais cuidado com isso!


03:43

Uma outra vez escrevi-te assim. Chamei a este texto 'Azul', pensando nos teus olhos. Tiques de escritor, sei bem - melhor que eu, está visto - que não é pelos teus olhos, os teus lindos olhos, que me ocorre escrever isto:

Desisto. Vou levantar-me e lavar os dentes. Se não resultar, sempre posso pedir ao vizinho para lavar os dele... Vivo numa cidade grande, posso bater a todas as portas, e o melhor é que, quando acabar o trabalho, posso outra vez continuar recomeçando, pois os primeiros já se entupiram de natas e têm os dentes pretos.

Ou então vou fazer uma lista de coisas. Colchões, nabiças, cabeças de alho, berlindes... são demasiadas...

Pois, juro que tentei. Ou isso, ou arranjei uma desculpa. Mas pelo menos não adormeço com a consciência a pesar, é deixa-la sossegada que ontem deitou-se tarde. Será que ainda tens as mãos quentes?


04:30

Como não guardei o documento, tive que voltar a escrever tudo de novo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

domingo, 27 de dezembro de 2009

Entre Festas

Deitou-se com uma mão a cheirar a perfume e outra a cheirar a alho

Abriu o laptop e contemplou o perfil salgado dela

Sabia-lhe o seu gosto tanto quanto se enterrava no sofá sem sair do sítio

Uma corrente de inibições deu-lhe uma pontada na coluna, quando atravessou a manta grossa de algodão e lã, grossa...

Não era Natal se não o pudesse passar com os seus amigos.

Não passava de ano sem rodar uma taça de sei lá o quê pelos companheiros.

E ali estavam eles. O alter ego bêbado que nem uma esponja, não se aguentou muito até estar rodeado por uma poça de pedaços dele, sucos digestivos vários, membros e idiossincrasias de um barril de Porto. Os outros deixaram o moço a dormir, já sabiam que aquilo ainda dava umas piadas para animar a madrugada, com todos a cair e ele com a genica e dor de cabeça.

Entretanto as várias personas viam vídeos antigos, e nem se queixavam nem ligavam nem se lembravam que os pudessem alcançar, no fundo estava tudo aguentando aquelas trágicas comédias passadas à espera da hora do karaoke.

Bem, mais um pouco e dormia, aí é que eles se iam divertir. Mas não se divertia ele, ia ser excluido pelos seus amigos, os seus companheiros. Que luz irritante, decidiu-se a desligar o computador, ah, é verdade, já me esquecia de ti. Já te tinha dito que és boa? Nunca te disse! Nunca lhe tinha dito. Também nunca lhe tinha dito que precisava da mão dela e dos seus olhos para dormir. Não que fosse necessário para dormir, mas se sabia bem... Claro que outras coisas lhe sabiam bem, como, por exemplo, o seu rabo. Há que fazer escolhas. Como não lhe disse nada, decidiu adormecer, é porque a passagem de ano no bar onde trabalha ainda deu muito chão por onde esfregar. Bom Natal rapaziada, e bom ano.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O homem guarda os cheiros em gavetas
E funciona assim, abre a gaveta e cheira
Depois fecha a gaveta e procura novos cheiros

O canguru guarda cheiros numa bolsa,
Pois é a única bolsa que possui pelo que não tem outros locais onde guardar cheiros

O utensílio alguidar guarda cheiros na borda
E se o homem soubesse
Só comprava bordas de alguidar

E tu? Tu vens e vais mas deixas o teu cheiro
O cheiro é forte quando vens e é teu quando vais
Eu guardo-o fora da gaveta, para me lembrar
Mas ele teima a ir também
Então tens que voltar

Já te vais embora?
Então deixa aqui o teu cheiro

domingo, 6 de setembro de 2009

A Bolha Disforme

A bolha disforme era uma bolha disforme
E não era conhecida

A bolha disforme era uma bolha disforme
Porque não era conhecida

Passou ele perto e passou-lhe os olhos
Pela bolha, não tão disforme
Não tão desconhecida

A bolha é conforme, e já não tão disforme,
a bolha é conhecida!

Ele a conhece e ronda a bolha conforme
ela deixava ser conhecida

Era um borrão de fractais desenfreados
Eram histórias de bonecas
Eram sustos de pernetas
Eram coisas reais
Eram cenas demais
Eram cavalgadas com animais cansados

Então a bolha conforme
ia sendo conhecida

Lembra-lhe a hora da abalada
Lembra-lhe a hora da despedida
Num lapso a bolha volta a disforme
Lembra-se de ser incompreendida

Num desespero próprio de disformidades
A bolha tem um brilho de lucidez

Um passe de cartola entre pombas
Lembra-se de contactos que ela fez

Retomaram-se então contactos
Mas quão perto é o longe
Que a bolha se tornara disforme?

Refizeram-se então contactos
Mas quão perto é o longe
Longe que tornara a bolha disforme?

Pois é

Agora a bolha é outra bolha
Cheia de fractais moderados
Cheia de contos de princesas
E sustos de condensas
Cheia de coisas surreais
E de outras, menos reais
Cheia de cavalos embriagados


E essa é a sua bolha, a sua bolha disforme
Até voltar a ser a sua bolha, a sua bolha disforme

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Ameaça

Quando estás longe, tudo bem, mas quando te começas a aproximar... Primeiro, há um choque, um pico do sismógrafo que acabou de ser ligado. Depois há um agradável blend de cheiros, a perfume, a batôn, a ti. Pode cheirar a merda na rua, quando chegas cheira a ti. Enquanto se fica enebriado por esses cheiros é que aproveitas para atacar (olha que aproveitar quando um gajo está entorpecido é baixo). Já estás ali ao lado, logo ao lado, mesmo ao lado.

Em Setembro é melhor, porque em Setembro cheira a humidade de chuva recente no ar e há folhas castanhas. Ou então em Outubro. Tem é que ser à noite. Mas parece que apareceres noutros meses é igualmente opção para ti. Isso para ti é apenas uma moita mais cerrada, para o ataque ser mais de surpresa! És o único felino que ronrona quando quer atacar.

Há os que se esquecem, acredita, só lhes voltas à memória na noite de ataque seguinte, semanas ou meses depois, conforme disponibilidade de um e doutro. Esses são os românticos.
Depois há aqueles em cuja memória ficas a bater ferro muito tempo. "Será que vai, ou não vai?" Esses são os parvalhões. Não queiras nada com eles (não que não saibas escolhê-los bem, mas às vezes...).

Enfim, é enfim que tenho a dizer. Inspirar fundo, como quem suspira calmo, mas que na verdade está a querer beber mais um golo de inspirações diluidas no ar. És assim. Nunca to tinham dito? Pois olha, és assim. Também, pode dizer-se que os lirismos acabam depressa aos romanticos, que aos outros, os parvalhões, nunca lá passou. Daí a complexidade em escrever-te algo. Só restam algumas arranhadelas como testemunhas do teu silencioso, mortal, sanguinário ataque.

Chiu... lá vens tu outra vez

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A Saga da Senhora que Comprou uma Geringonça - Prosa

Para servir as suas necessidades de ocupação de tempo, a Dona Apolinária comprou um computador. Entusiasmada, abriu-o, desviou o napron da mesa da sala, espalhou as peças e montou-o. Orgulhosa do seu feito quis experimentá-lo, pelo que decidiu escrever o seu nome. Ligou a máquina, iniciou um novo documento no processador de texto e escreveu: "Apolinária". Ficou contente. Desligou o computador.

Um instante depois de o novo companheiro deixar de suspirar, lembrou-se que o seu primeiro nome era muito singular, demasiado singular, e essa singularidade incomodava-a. Então, ligou o computador. Deixou escrito "Apolinária Bento". Sorriu. Que lindo. Desligou o computador.

Logo depois de se ter levantado para ir lavar as suas pantufas, Dona Apolinária estacou. Não tinha dado nome ao ficheiro... Ligou o computador. Abriu o ficheiro "Sem Título" e guardou-o como "Nome". Em êxtase, deleita-se com o feito, enquanto o computador desliga.

Levantou-se. Tropeçou, no tapete e nas suas ideias. Um ficheiro com um nome chama-se "Nome"? Não era um nome, era o seu nome! Ligou o computador. Alterou o nome do ficheiro para "O Meu Nome". Desligou o computador.

Lembrou-se que algo já tinha o nome de "O Meu...". O que era? Ligou o computador. Bem na frente dela um nome piscava: "O Meu Computador". Ao lado deste, a existência de um ficheiro chamado "O Meu Nome" tornava o computador da Dona Apolinária repetitivo. Alterou o nome do ficheiro. Desligou o computador.

A Dona Apolinária ofereceu o computador à neta. Comprou um massajador facial.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Os Pacholas - parte I

A mesa de jantar abarca

Pachola-filhos, que pai não demora

A longa espera pelo patriarca

Envolve notícia, boa ou da hora…


Cruzam-se conversas à nova

Pois o regente enche-se da alvíssara

A audiência conversa ansiosa

Ele só começa porque esta lho pedira


Diz Pachola-pai a repeito

"De muito demorada encenação:

Pachola-filho não dormia só

Tanto que saiba, do início da estação"


Sobre o primogénito falava

Falava, e o público suspendia

De tal facto só o perdoava

A descoberta da que o movia


Pachola-velha estava presente,

Escondia-se com tamanho escândalo;

Pacholas-filhas, com olhar de rente,

Escondiam risos sobre esse engano


É dada a palavra ao delator

"Sei que tirei bom usufruto

Mas quem tendes que procurar

É a quem retribuí com tributo"

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Afinal é assim

No mundo de Jonas
As coisas são como são
Água é água, gelo é gelo
Duche é banho de imersão
Dizendo-se a água menos gelo
Ou o gelo menos vapor
Dizia-se pela água se via o gelo
E pelo gelo, perfeição

Afinal tudo é água,
Afinal tudo é feição
Afinal tudo é tudo
E nenhum não é não
Assim se encontra a pureza
Levíssima subtileza
Dos produtos que se vêm
Dos produtos que se vão

domingo, 5 de abril de 2009

Sexta à noite

Sexta à tarde regresso do meu sapato
Chama-me o sofá tumultuoso
Ainda ligado? Ah, já alguém o tivera adormecido hoje...
Pois, ainda deitam vozes, algo de muito ténue
"il bambino... grazo cazzo..."
"si... siii... Siiii!"
Era esta a mistura latina ouvida
Desconfio por não se ouvir o francês (ouve-se sempre francês...)
Mas não divaguemos: a sua voz latente ressoa
Porém, ah! o que é isto? vem desta caixa
Não pode ser... o gajo deve ser um ventríloquo ou assim
Pelo menos é assim que o vejo
Há uma crosta, uma litosfera, um lençol fluvial
Pesado, pesado... no entanto tão convidativo
Era este que me chamava? não vamos especular
Vamos antes dar-lhe uso, vamos subverter a latência geral.
Vamos à luta! Juntos derrotaremos o sistema!
Não, não vamos. Hoje não, hoje vamos ouvir palavrões em italiano
Em espanhiliano, é mais o que estamos a ouvir...
Chamo-lhe um truque, mais um mexicano.
Seja o que for, não interessa
Vou voltar... está lúcido... lúcido...
Lá está outra vez o corvo:
nunca mais, nunca mais!
Nunca mais?...
Nunca...
Mais...
esta noite é sexta
e adormeci no sofá
debaixo de um edredon
e a ver televisão estrangeira

Eles!

Eles estão por todo o lado
Eles são convencidos
São demitidos
Nunca desistem
Nem se comprometem

São completares e bipolares
São indesejados e alterados
Hipócritas e anedóticos
São puros e empíricos

Eles são socialistas
Anarquistas, comunistas
Sindicalistas e banqueiros
Eles são podres de dinheiro
E parece que querem mais

São sem-abrigos
São reis de si próprios
Não têm os pés na terra,
Guardando o seu local ao sol
Foram mal criados
Agora são bem educados

São mentirosos
Chauvinistas
Pateta-alegres
Terroristas
Eles não sabem
Eles não sonham
Mas têm altas vistas

Eles pensam, e pensam que sabem
Eles são marxistas e salazaristas
São Nietzsche, são Freud
São um coração mole

São indesejados e ultrajados
São expulsos, ociosos
São lixados e trabalhosos
São exilados e escrupulosos

Ai, eles!...
Eles são assim
Não há nada que os faça mudar
Eles são romanticos e racionais
Eles são platónicos e fiéis
São cabrões e chulos
São prostituintes de somas
São prostitutos de produtos
São pouco e são demais

Eles são excremento, são nojeira
São lama, terra má
São barro, gesso, porqueira
São do pior que há

Mas quem são eles?
Os vilões, os artistas
Os mundanos, proxenetas
Eles que são profetas
Quem são eles?

Não quero cometer a pífia imoral
De dizer que nós somos eles...
Mas não será de mais reflectir
Nos tempos propícios à arte
(E técnica, convenhamos)
Sobre a verdadeira
Parte de nós que são eles

domingo, 8 de março de 2009

Temo que o que escrevo me engane
Por falta de experiência e objecção.
Por falta de consciência há os que objectivam
Que a própria ciência me trame

Temo que as palavras me iludam
Essas que pela minha mão nascem
Primeiras, eis que antes por outros
Foram escritas as putas da ilusão