segunda-feira, 1 de março de 2010

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

03:19

Não consigo dormir. Ocorreu-me escrever-te centenas de cartas, como tal, não consigo escolher uma. Mas como sou um fraco, e tenho que te escrever algo... Bem, o que quero dizer é que te vais ter que contentar com isto:


03:22

Uma vez escrevi-te assim:

Não tens que agradecer.

Não fui eu quem te desenhou o sorriso, nem o contorno da cara, nem te pintou as mãos de vermelho nem os olhos de azul. Quando te vestes de paz e rosa e ris, nunca sou eu o guarda roupa. O guarda roupa... nem sequer te escrevi os textos! Foi o gajo, o que escreveu também em itálico, provavelmente por cima da tua primeira fala, que era agradável estar contigo. Sobre isso, quero que fique claro, nem tenho culpa! (E por um pouco, nem desculpa para o fazer.)


03:24

Tenho pensado muito em ti. Tens sido a responsável por ter escrito muitos textos ultimamente. O que não é mau para um escritor. Bem, já sei que, quando sair alguma compilação de textos meus, os meus colegas vão topar que vão todos a saber a ti. Deixa-os, isto é só nosso! Posso até concretizar isso, posso nem publicar os textos e apenas dá-los a ti. Por mim é boa ideia, de todas as maneiras já consegui armazenar comida até ao fim do mês.


03:28

...

03:31

Passam-me pela cabeça milhares de matérias, ou assuntos (para onde irão eles?). Não os estou a conseguir organizar, por isso vou fazer uma lista:

  1. agora não se escrevem cartas
  2. agora arquitectam-se relações
  3. não sei se sabes que és assim


03:33

A primeira entrada é mais um apontamento que me faz questionar - e automaticamente responder, por já saber a resposta - porque estou a escrever isto. Já (quase) ninguém escreve cartas. Porém, são cartas que me apetece escrever-te. Sei bem que é devido aos medos e faltas de coragem respectivas que estão associados ao pensar em escrever isto tudo num telemovel, limitado por espaço e saldo. Foi fácil, e sobre isto já não há mais a acrescentar.


03:36

b) é uma consequência de ter pensado em a) e ter ficado acordado a pensar em ti quando tenho centenas de personagens que me acompanharam durante o dia a dançar na minha cabeça (e que descem pelo meu peito). Sei bem das regras que implicam escrever uma carta de amor ou de amizade assinada por um alguém, na esperança de publicar nalgum suplemento literário de uma revista menor. Basta escrever na terceira pessoa e a relação que conto ao leitor é outra (muito mais formal, ou antes, cuidada). Também podemos pensar em todos os pequenos detalhes quando lidamos com alguém. E acredito que há quem o faça. Dá-me vontade de lhes chamar plásticas a essas relações.


03:40

Não sei mesmo se sabes porque te acontece isto, de deixar alguém acordado. Já muitas vezes sugeriste desconhecer porque há homens que se comportam como crianças na tua proximidade. Espera... não, isso acho que podes tentar descobrir tu! Até porque não sei tudo, não é? Ups, já está a acontecer outra vez. Isto passa-se muito, de querer escrever, que devia ser apenas decalcar as ideias muito estruturadas que me passam pela cabeça, e entrar numa dormência que me obriga a escrever palavras que não fazem sequer ligação com as que se encontram duas posições atrás. Tenho que ter mais cuidado com isso!


03:43

Uma outra vez escrevi-te assim. Chamei a este texto 'Azul', pensando nos teus olhos. Tiques de escritor, sei bem - melhor que eu, está visto - que não é pelos teus olhos, os teus lindos olhos, que me ocorre escrever isto:

Desisto. Vou levantar-me e lavar os dentes. Se não resultar, sempre posso pedir ao vizinho para lavar os dele... Vivo numa cidade grande, posso bater a todas as portas, e o melhor é que, quando acabar o trabalho, posso outra vez continuar recomeçando, pois os primeiros já se entupiram de natas e têm os dentes pretos.

Ou então vou fazer uma lista de coisas. Colchões, nabiças, cabeças de alho, berlindes... são demasiadas...

Pois, juro que tentei. Ou isso, ou arranjei uma desculpa. Mas pelo menos não adormeço com a consciência a pesar, é deixa-la sossegada que ontem deitou-se tarde. Será que ainda tens as mãos quentes?


04:30

Como não guardei o documento, tive que voltar a escrever tudo de novo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

domingo, 27 de dezembro de 2009

Entre Festas

Deitou-se com uma mão a cheirar a perfume e outra a cheirar a alho

Abriu o laptop e contemplou o perfil salgado dela

Sabia-lhe o seu gosto tanto quanto se enterrava no sofá sem sair do sítio

Uma corrente de inibições deu-lhe uma pontada na coluna, quando atravessou a manta grossa de algodão e lã, grossa...

Não era Natal se não o pudesse passar com os seus amigos.

Não passava de ano sem rodar uma taça de sei lá o quê pelos companheiros.

E ali estavam eles. O alter ego bêbado que nem uma esponja, não se aguentou muito até estar rodeado por uma poça de pedaços dele, sucos digestivos vários, membros e idiossincrasias de um barril de Porto. Os outros deixaram o moço a dormir, já sabiam que aquilo ainda dava umas piadas para animar a madrugada, com todos a cair e ele com a genica e dor de cabeça.

Entretanto as várias personas viam vídeos antigos, e nem se queixavam nem ligavam nem se lembravam que os pudessem alcançar, no fundo estava tudo aguentando aquelas trágicas comédias passadas à espera da hora do karaoke.

Bem, mais um pouco e dormia, aí é que eles se iam divertir. Mas não se divertia ele, ia ser excluido pelos seus amigos, os seus companheiros. Que luz irritante, decidiu-se a desligar o computador, ah, é verdade, já me esquecia de ti. Já te tinha dito que és boa? Nunca te disse! Nunca lhe tinha dito. Também nunca lhe tinha dito que precisava da mão dela e dos seus olhos para dormir. Não que fosse necessário para dormir, mas se sabia bem... Claro que outras coisas lhe sabiam bem, como, por exemplo, o seu rabo. Há que fazer escolhas. Como não lhe disse nada, decidiu adormecer, é porque a passagem de ano no bar onde trabalha ainda deu muito chão por onde esfregar. Bom Natal rapaziada, e bom ano.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O homem guarda os cheiros em gavetas
E funciona assim, abre a gaveta e cheira
Depois fecha a gaveta e procura novos cheiros

O canguru guarda cheiros numa bolsa,
Pois é a única bolsa que possui pelo que não tem outros locais onde guardar cheiros

O utensílio alguidar guarda cheiros na borda
E se o homem soubesse
Só comprava bordas de alguidar

E tu? Tu vens e vais mas deixas o teu cheiro
O cheiro é forte quando vens e é teu quando vais
Eu guardo-o fora da gaveta, para me lembrar
Mas ele teima a ir também
Então tens que voltar

Já te vais embora?
Então deixa aqui o teu cheiro

domingo, 6 de setembro de 2009

A Bolha Disforme

A bolha disforme era uma bolha disforme
E não era conhecida

A bolha disforme era uma bolha disforme
Porque não era conhecida

Passou ele perto e passou-lhe os olhos
Pela bolha, não tão disforme
Não tão desconhecida

A bolha é conforme, e já não tão disforme,
a bolha é conhecida!

Ele a conhece e ronda a bolha conforme
ela deixava ser conhecida

Era um borrão de fractais desenfreados
Eram histórias de bonecas
Eram sustos de pernetas
Eram coisas reais
Eram cenas demais
Eram cavalgadas com animais cansados

Então a bolha conforme
ia sendo conhecida

Lembra-lhe a hora da abalada
Lembra-lhe a hora da despedida
Num lapso a bolha volta a disforme
Lembra-se de ser incompreendida

Num desespero próprio de disformidades
A bolha tem um brilho de lucidez

Um passe de cartola entre pombas
Lembra-se de contactos que ela fez

Retomaram-se então contactos
Mas quão perto é o longe
Que a bolha se tornara disforme?

Refizeram-se então contactos
Mas quão perto é o longe
Longe que tornara a bolha disforme?

Pois é

Agora a bolha é outra bolha
Cheia de fractais moderados
Cheia de contos de princesas
E sustos de condensas
Cheia de coisas surreais
E de outras, menos reais
Cheia de cavalos embriagados


E essa é a sua bolha, a sua bolha disforme
Até voltar a ser a sua bolha, a sua bolha disforme

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Ameaça

Quando estás longe, tudo bem, mas quando te começas a aproximar... Primeiro, há um choque, um pico do sismógrafo que acabou de ser ligado. Depois há um agradável blend de cheiros, a perfume, a batôn, a ti. Pode cheirar a merda na rua, quando chegas cheira a ti. Enquanto se fica enebriado por esses cheiros é que aproveitas para atacar (olha que aproveitar quando um gajo está entorpecido é baixo). Já estás ali ao lado, logo ao lado, mesmo ao lado.

Em Setembro é melhor, porque em Setembro cheira a humidade de chuva recente no ar e há folhas castanhas. Ou então em Outubro. Tem é que ser à noite. Mas parece que apareceres noutros meses é igualmente opção para ti. Isso para ti é apenas uma moita mais cerrada, para o ataque ser mais de surpresa! És o único felino que ronrona quando quer atacar.

Há os que se esquecem, acredita, só lhes voltas à memória na noite de ataque seguinte, semanas ou meses depois, conforme disponibilidade de um e doutro. Esses são os românticos.
Depois há aqueles em cuja memória ficas a bater ferro muito tempo. "Será que vai, ou não vai?" Esses são os parvalhões. Não queiras nada com eles (não que não saibas escolhê-los bem, mas às vezes...).

Enfim, é enfim que tenho a dizer. Inspirar fundo, como quem suspira calmo, mas que na verdade está a querer beber mais um golo de inspirações diluidas no ar. És assim. Nunca to tinham dito? Pois olha, és assim. Também, pode dizer-se que os lirismos acabam depressa aos romanticos, que aos outros, os parvalhões, nunca lá passou. Daí a complexidade em escrever-te algo. Só restam algumas arranhadelas como testemunhas do teu silencioso, mortal, sanguinário ataque.

Chiu... lá vens tu outra vez